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Martin Luther King Jr.: Mito, Memória e Política

15 de janeiro é o Dia de Martin Luther King Jr. nos Estados Unidos, um dos quatros feriados nacionais comemorando indivíduos históricos. Políticos de todos os tipos, inclusi ve Presidente George W. Bush, vão eloqüentemente comemorar o desempenho heróico de King no movimento de direitos civis para negros nas décadas de 1950 e 1960. Ele será lembrado nos moldes das outras figuras míticas da história estadunidense como Abraham Lincoln, Thomas Jefferson e George Washington, um respeitável cidadão que superou adversidade de afirmar os ideais americanos de liberdade e progresso. E como a dos seus predecessores, a mitificação de King envolverá mais de um pouquinho de amnésia histórica, distorção ideológica e hipocrisia política.

 

Como articula a proeminente historiadora norte-americana Jacquelyn Dowd Hall, a narrativa dominante do movimento por direitos civis segue assim: no encalço da decisão da Corte Suprema em 1954 de que escolas segregadas entre brancos e negros foram inconstitucionais, um movimento pac ifista por plenos direitos civis liderado por King surgiu nos estados sulistas, ganhou o apoio do governo federal Democrata e culminou no estabelecimento do Ato de Direitos Civis em 1964 e o Ato de Direito de Voto em 1965. Além de King, os heróis nesta versão mítica são Presidentes John F. Kennedy e Lyndon Johnson e o FBI, que implementaram as novas leis e protegeram os militantes, como está relatado no filme popular, Mississipi em Chamas.

 

Nos meados dos anos 1960, o movimento entrou em declínio de acordo com a história convencional. O debate sobre a guerra de Vietnã rachou o povo americano, motins selvagens sacudiram os centros das cidades grandes nortistas e novas agitações radicais como as do Black Power, os Panteras Negras, o feminismo, a contracultura e os grupos antiguerra desprezaram a imagem respeitável de movimentos sociais como os de King e direitos civis, causando uma reação do governo e da sociedade branca contra os “excessos” radicais que resultou na ascendência de políticas conservadoras a partir da década de 1970 e eventualmente nos ataques contra muitos programas sociais dos anos 1960 como ação afirmativa e previdência social.

 

Que King era um corajoso lutador por justiça social é indisputável, mas a narrativa dominante, amplamente desvendado em filmes, livros, a mídia e homilias políticas, tranqüiliza seu projeto radical e deslembra a intensa oposição que ele enfrentou.

 

King era detestado e temido na sua época pelas elites políticas, Republicana e Democrata, bem como pelos órgãos repressivos do estado americano. Os irmãos Kennedy, por exemplo, eram altamente acautelados em relação aos direitos civis, desprezando os movimentos militantes e seus líderes, inclusive King, e relutantemente oferecendo poderes federais para proteger ativistas, geralmente tarde demais e com forças insuficientes. Ao contrário de Mississippi em Chamas, o FBI ignorou muita violência e somente interviu quando os movimentos ameaçaram a estabilidade social. O chefe do FBI, o J. Edgar Hoover, fez uma campanha clandestina contra King por mais de uma década, grampeando seus telefones e o chantageando além de ter-lhe mandado uma carta anônima sugerindo que se suicidasse. Assessores de Kennedy manejaram a Marcha de Washington em 1963 na qual King fez seu famoso discurso, Eu tenho um sonho, censurando discursos militantes e vetando ações mais militantes. Pressionado de baixo e preocupado com os efeitos negativos de crises raciais na opinião mundial, o governo de Johnson foi forçado a formalmente proibir discriminação no emprego, serviços públicos e eleições em 1964 e 1965, aumentar programas sociais e iniciar ação afirmativa para minorias.

 

O King nós geralmente vemos no discurso popular é o humilde líder Cristão, negociando pacificamente com as autoridades. Vemos pouco o radical King que definiu transformação social em termos econômicos, combatendo a pobreza e falta de poder da classe trabalhadora negra e branca, apoiando campanhas de sindicalização e relacionando racismo nos Estados Unidos com militarismo e imperialismo americano no mundo. Como ele disse: “< span style="COLOR: black">A revolução negra é muito mais que uma luta para os direitos de negros. Ela tem forçado a América enfrentar todas as suas falhas – racismo, pobreza, militarismo e materialismo. Está expondo os males que são enraizados firmemente na inteira estrutura de sociedade[…] e sugere que reconstrução radical é a real questão a ser enfrentada.”

 

 

Não foi surpresa ter sido assassinado em Memphis em 1968, durante uma visita de apoio a uma militante greve de trabalhadores negros.

 

Originalmente proposto por sindicatos no fim dos anos 1960 e apoiado ao longo dos anos 1970 pelo movimento negro, o próprio feriado comemorando King enfrentou a implacável oposição de conservadores. Nos anos 1980, o poderoso senador sulista, Jesse Helms, criticou a idéia de celebrar King, citando a sua oposição à guerra de Vietnã e chamando-o um comunista. Presidente Ronald Reagan também negou a apoiar a iniciativa. Depois de um abaixo assinado com 6 milhões de assinaturas, o Congresso e o Senado finalmente aprovaram a iniciativa em 1983; mesmo assim, 90 deputados e 22 senadores votaram contra, inclusive alguns Democratas. Vários estados recusaram-se honrar o feriado até o fim dos anos 1990.

 

É uma das hipocri sias mais marcantes dos contemporâneos Estados Unidos de que muitos dos políticos que honrarão King são contra quase tudo que ele acreditava: ação afirmativa, políticas antipobreza, fortes direitos trabalhistas, um justo estado de bem-estar e antiimperialismo. Vai além de hipocrisia: ao confinar King às campanhas somente por direitos políticos formais, a narrativa dominante permite com que políticos conservadores atuais diminuíssem ou acabassem com os ganhos socioeconômicos dos movimentos dos anos 1960. Negros nos Estados Unidos ainda sofrem agudas desigualdades de renda, educação e habitação, agravadas nos últimos vinte anos com a redução brutal de programas sociais, direitos trabalhistas e ação afirmativa sob governos Republicanos e Democratas. Por isso, a luta por justiça socioeconômica e racial de heróis como Martin Luther King Jr. e muitos outros na base do movimento de direitos civis ainda permanece inabalavelm ente na agenda política dos Estados Unidos.

Sean Purdy, Professor, História dos Estados Unidos, Universidade de São Paulo.

 
 

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