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As paradas do orgulho gay vêm se consolidando como um evento político importante em todos os cantos do mundo. São manifestações que tiveram início há 30 anos, como atos de afirmação da sexualidade gay e lésbica, chamando a atenção para um tema que ainda é considerado tabu e tratado com desprezo e preconceito. Além das Paradas do Orgulho Gay, a realização de outros tipos de manifestação, a realização de campanhas tem sido importantes na luta contra a homofobia. Cada vez mais pessoas deixam de ver a homossexualidade como uma aberração ou doença, e leis que reconhecem a união entre pessoas do mesmo sexo têm se tornado cada vez mais comuns. Apesar disso, as conquistas ainda representam pouquíssimo diante dos graves problemas que gays, lésbicas, bissexuais e travestis enfrentam:, expondo-se cotidianamente não só a atitudes preconceituosas, chacotas, perseguições e discriminação, mas à violência física e repressão policial.
Alguns problemas contribuem para esse avanço limitado. É interessante compararmos com outros movimentos, como o das mulheres, para que se tenha uma idéia mais clara. A luta pelos direitos das mulheres é antiga, e ao longo do tempo ela extrapolou os limites dos movimentos feministas, para se incorporar às lutas dos movimentos sociais e as plataformas de partidos políticos. Hoje em dia a maioria dos sindicatos possui comissões de mulheres, e muitas organizações, como a CUT, adotam o sistema de cotas para mulheres. E aqui não importa o juízo que se tenha sobre o sistema de cotas o fundamental é o fato de que a luta das mulheres ganhou amplitude. Do mesmo modo, os debates e discussões sobre os problemas referentes às mulheres e seus direitos, estão amplamente disseminados. É óbvio que apesar disso essa luta está distante de ter alcançado um estágio condizente com as suas necessidades. Mas, dentre os movimentos dos setores oprimidos, é o que se encontra em um grau mais avançado de organização, debate e mobilização. A situação dos movimentos contra a discriminação racial é bastante diferente. Embora nos últimos an os a questão racial venha conquistando um espaço cada vez maior na agenda política, a luta contra o racismo no Brasil ainda engatinha.
O grau de organização e de luta dos gays, lésbicas e travestis é, infelizmente, baixíssimo. Os debates sobre a homofobia, os direitos de gays e lésbicas ainda estão distantes dos movimentos sociais e das organizações da chamada sociedade civil. Pelo contrário, mesmo nesses setores pode-se constatar a disseminação do preconceito e a subestimação dessa luta, a qual é tão importante quanto as lutas das mulheres, negros e outras vítimas de opressão.
Em grande medida, isso reflete a falta de compreensão do próprio problema da opressão. Em geral, há uma tendência a ver a opressão como um problema de atitude, de conscientização, etc. Embora não se possa negar a importância das campanhas de esclarecimento, das ações judiciais movidas por vítimas de discriminação, dos lobbies organizados por entidades gays, a opressão não pode ser reduzida a um problema de atitude, de idéias ou comportamento. Da mesma forma que o machismo e o racismo, a opressão contra gays e lésbicas está enraizada em um sistema que necessita da opressão e a reproduz constantemente em suas variadas formas. E qualquer combate conseqüente contra a opressão precisa ser radical, isto é, necessita ir à raiz do problema.
A publicação deste caderno pretende ser uma contribuição a esse debate. Embora sua elaboração date de 1988, os seus argumentos são atuais e proporcionam elementos importantes para se compreender as bases materiais reais da opressão gay e para se discutir os caminhos possíveis para a sua superação. Esta é, afinal, uma luta não só dos homossexuais, lésbicas, travestis e bissexuais, mas de todos nós que lutamos por uma sociedade igualitária e fraterna.
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